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Passagem sem volta: brasileiros de partida

Debandada brasileira

#partiu. Não há expressão melhor para descrever o movimento crescente de saída que vem acontecendo no país nos últimos anos.

Comunidades brasileiras no exterior vêm ganhando cada vez mais espaço. Não à toa, eventos que celebram nossa cultura se espalham pelos mais diversos países. O Brazilian Day, originário de Nova Iorque, nos EUA, e que reúne cerca de 1,5 milhão de pessoas, marca presença também em Toronto, no Canadá, Lisboa em Portugal, Londres, na Inglaterra e Tóquio, no Japão. Sydney, na Austrália e Auckland, na Nova Zelândia também têm suas versões da festa brasileira.

Países mais procurados

Em termos de destino, EUA reina absoluto há décadas como escolha principal dos emigrantes brasileiros. Conta, inclusive, com uma região denominada Little Brazil, em Nova Iorque, tão grande é a concentração de nossos conterrâneos por ali. E quem nunca ouviu dizer que em Miami e Orlando fala-se mais português do que inglês?

No pódio dos destinos, em terceiro lugar está o Japão, perdendo apenas para o Paraguai, cujo movimento migratório tem uma natureza diferente dos demais países. Os brasileiros também representam a terceira maior comunidade de imigrantes residentes no Japão, depois dos coreanos e chineses.

Reino Unido vem na sequência, abrindo portas para a Europa: Portugal, Espanha, Alemanha, Suíça, Itália e França.

Fonte: Ministério das Relações Exteriores, edição 2012

Motivadores

Os motivos que justificam esse êxodo são velhos conhecidos: violência, altos índices de criminalidade e falta de segurança costumam liderar as respostas. Descontentamento político e instabilidade econômica, além de corrupção, também são frequentemente mencionados. Até mesmo o famoso “jeitinho brasileiro” já é apontado com representatividade em levantamentos como fator de incômodo, no que diz respeito à maus hábitos como sempre querer levar vantagem em cima dos outros.

É esse estado de insatisfação geral, que, aliado a falta de perspectiva no país e ao desejo de um futuro melhor, fazem com que cada vez mais brasileiros tomem a decisão de partir.

O perfil da migração

Segundo uma estimativa do Ministério das Relações Exteriores havia cerca de 3 milhões de brasileiros vivendo no exterior em 2016. Embora isso represente apenas 1,4% da população atual, o que para alguns autores ainda não faz do Brasil um país de emigração, é importante estar atento à intenção das pessoas.

Em uma pesquisa realizada pelo Datafolha em 2018, 62% dos jovens entrevistados entre 16 e 24 anos disseram que mudariam de país se pudessem. A taxa foi de 50% para pessoas entre 25 e 34 anos.

Outro fator que precisa ser analisado é como esses movimentos migratórios vêm mudando ao longo do tempo. Se antes quem deixava o país era na maioria solteiros com no máximo ensino superior, hoje são mestres e doutores em casais e famílias que estão se mudando em busca de algo melhor, evento chamado de fuga de cérebros.

De olho nos números

Diversos relatórios mostram o crescimento da presença brasileira ao redor do mundo. E, embora os números sejam diferentes, pois cada organização tem suas próprias premissas e objetivos ao realizar a medição, o fato é que os brasileiros estão sim emigrando.

Receita Federal

De acordo com o órgão fiscal brasileiro, o número de Declarações de Saída Definitiva do País quase triplicou nos últimos dez anos. Saltou de aproximadamente oito mil declarações apresentadas em 2011 para 21 mil em 2020, com picos de quase 24 mil entre 2017 e 2019.

Este documento deve ser apresentado por quem deixa o país e torna-se residente em outro. A entrega dele representa a saída fiscal da pessoa do Brasil. Entretanto, devido aos impactos que gera, muitas pessoas acabam não fazendo este procedimento. A Declaração de Saída Definitiva do País atribui ao CPF o status de “não residente” o que altera, por exemplo, o relacionamento da pessoa com instituições financeiras.

Fonte: Receita Federal

International Organization of Migration

A IOM, agência relacionada da Organização das Nações Unidas (ONU) e referência internacional em questões migratórias, publica desde 2000 o World Migration Report, no qual analisa o tema sob várias perspectivas. Segundo a IOM, em 2000 o Brasil possuía 956 mil emigrantes. Em 2019, foi reportado 1,5 milhão de brasileiros residindo fora da América do Sul, ou seja, o número total de emigrantes é ainda superior.

Organisation for Economic Co-operation and Development

De acordo com o relatório publicado pela OECD, International Migration Outlook, em 2018 o Brasil ocupou o 13º lugar da lista de imigrantes legais que se destinaram ao bloco. Comparado com o ano anterior, subiu 5 posições no ranking e foi destaque no relatório da organização como um dos países que mais apresentou crescimento.

Neste relatório também é possível analisar a evolução do fluxo migratório, que não só vem mostrando crescimento contínuo nos últimos anos como também atingiu o recorde histórico dos últimos 18 anos.

Dupla cidadania europeia

Um movimento acelerado na aquisição de dupla cidadania europeia por parte de brasileiros também vem ganhando destaque.

Eurostat

A Eurostat, Gabinete de Estatísticas da União Europeia, acompanha e divulga desde 2002 dados sobre a aquisição de cidadania no bloco. Em 2018 o Brasil foi destaque no relatório, quando junto com Marrocos, Albânia e Turquia, foi responsável por um quarto do indicador.

Em 18 anos, 195 mil brasileiros obtiveram cidadania de algum dos 27 países da União Europeia. Se incluirmos o Reino Unido, o número sobe para 209 mil.

No ranking dos países que mais solicitaram dupla cidadania europeia, o Brasil saltou da décima quarta posição, em 2014, para a quarta posição em 2018, e embora tenha caído para a sétima colocação em 2019 (devido à disparada de três países – Reino Unido, Síria e Romênia), sempre apresentou crescimento constante.

De 2002 a 2019 o número de cidadania europeia concedida a brasileiros por ano cresceu 1211% (incluindo o Reino Unido). No início das medições, 1.881 brasileiros receberam uma segunda nacionalidade europeia, enquanto que no último ano foram 24.661.

No acumulado, Portugal lidera a quantidade de passaportes concedidos a brasileiros, representando 32,4%, seguido por Itália (24,7%) e Espanha (15%). Alemanha (7,5%), Reino Unido (6,8%) e França (5,1) complementam a lista na sequencia.

Entretanto, nos últimos 3 anos, a Itália inverteu a curva com Portugal, e sozinha, é responsável por quase metade dos passaportes emitidos a brasileiros (43,6%).

Arquivo Público do Estado de São Paulo

O APESP, responsável por emitir certidões de imigração, também vem recebendo número recorde de solicitações. Entre 2014 e 2017 a demanda praticamente duplicou: de 5.604 aumentou para 10.379.

A certidão de imigração é um documento que comprova a entrada de um imigrante no Brasil e é utilizado em processos de dupla cidadania.

Oportunidade à vista

Com a paralisação mundial e o fechamento de fronteiras que vivemos em 2020 e 2021 devido à pandemia, países como Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Japão, que sofrem com o problema de falta de mão-de-obra, devem nos próximos anos intensificar seus programas de incentivo à entrada de estrangeiros.

De acordo com uma reportagem do Financial Times, o Canadá já fala em aumentar a meta de entrada de imigrantes a patamares recordes. Os próximos anos terão o maior nível de entrada de imigrantes da história do país.

Sem dúvida será um período de muitas oportunidades para quem estiver qualificado e tiver interesse em começar uma nova vida em outro país.

Se você tem direito a reconhecer uma cidadania europeia, mas não possui os documentos necessários para realizar o processo, te recomendo minha mentoria online, na qual eu te ensino a pesquisar os documentos antigos da sua família.

E você, gostaria de morar em outro país? Me conte aqui nos comentários para onde você iria e por quê.

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Renata Jacomolski

Turismóloga, administradora e aspirante a jornalista de viagens. Apaixonada por conhecer novas culturas e aprender novos idiomas. Genealogista por paixão e estudiosa das viagens enquanto movimentos migratórios. Defensora incansável da vida digital através do trabalho remoto e do estudo online. Brasileira radicada na Alemanha.

19 Comentários

    1. Sem dúvida, Marcela. Os brasileiros estão por toda parte! É incrível como a gente sempre encontra brasileiro em cada lugar tão pequeno e afastado… rsrsrsrs… Obrigada pela visita.

  1. Infelizmente em Portugal essa debandada ocorreu há uns anos e muitos de nós tiveram que buscar outras oportunidades fora. É triste não nos ser dado valor no nosso país e sermos recebidos de braços abertos em outros. Enfim…

    1. Mudar faz bem, Patrícia. Que bom que podemos nos movimentar e nos direcionar para outros lugares, né?! Obrigada pela visita.

  2. Nossa, adorei o post sobre a debandada brasileira. Bem completo e necessário. Muitas amigas já fizeram isso, e eu também estou começando a cogitar. Acho que morar em muitos desses países que você citou é muito bom principalmente se tratando de segurança e violência urbana.

    Adorei o post, abraços 🤗

    1. Bacana saber que você também pensa em se mudar, Elizabeth. Vamos nos encontrar por esse mundão! Obrigada pela visita.

  3. Adorei as informações. Fiquei surpresa com o gráfico dos países mais procurados, imaginava outra classificação… kkk… Atualmente estou no Uruguai e tem muitos brasileiros por aqui. Eu acredito que vai haver uma debandada brasileira quando as fronteiras forem abertas.

    1. Que bacana, Angela! Já estive no Uruguai e amei! Realmente tem muitos brasileiros por aí. Aproveite bastante! Obrigada pela visita.

  4. Muito bem feito este conteúdo de debandada brasileira que já ocorre faz muitos anos. Mas eu mesmo não animei ir embora porque sou efetivo, pois se não fosse, já tinha dado linha deste país e a insegurança é um dos maiores motivos. Parabéns e abraços.

  5. Eu já pensei muitas vezes em me mudar do Brasil, e o tal “jeitinho brasileiro” é um dos principais motivos. Tenho muitos amigos que se mudaram e todos sabemos que ser estrangeiro em outro país está longe de ser um mar de rosas, mas atualmente… o Brasil está cada vez mais difícil.

    1. Sem dúvida mudar de país não é fácil, Cintia. Precisamos sempre ponderar os prós e os contras para decidir se vale a pena ou não. Obrigada pela visita.

    1. Oi, Izabela. Realmente o momento agora não é o mais ideal para uma mudança de país, mas podemos aproveitar este período para fazer o planejamento! Obrigada pela visita.

  6. Adorei saber tantos dados sobre a debandada brasileira pra outros países! Obrigado por compartilhar tanta informação!

      1. É sempre bom sabermos das coisas assim com tantos dados e cheio de informação, nem precisa agradecer e sucesso!!!

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